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As necessárias narrativas para recordar Amadeu Costa [1]

José Luís Carvalhido da Ponte

11 Junho 2021, 9:00

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Se nós não soubermos apalavrar a realidade, será que a realidade existe mesmo para cada um de nós? Por mais que nos digam que existem sítios chamados KualaLumpur ou Cacheu ou Luanda ou Toronto ou … será que os desenhamos, de imediato, no painel da nossa memória? Por certo que não.

Precisaremos que nos falem deles: dos edifícios, das ruas, das paisagens, dos cheiros, dos sons, das gentes, das histórias. E mesmo assim teremos deles uma imagem espelhada. Se nos disserem que houve um poeta chamado Fernando Pessoa já conhecemos Fernando Pessoa? Claro que não. Teremos de ouvir falar dele; teremos de apreciar fotografias suas; teremos de o ler; teremos de o assumir para calmamente o degustarmos. Então talvez conheçamos um pouco de Fernando Pessoa. Mas apenas um pouco pois nenhuma biografia, nenhuma fotografia, nenhum texto do autor ou nenhuma narrativa sobre Fernando Pessoa são Fernando Pessoa, que o poeta, não, universalizemos, que o Homem é sempre um fingidor. O conhecimento total e momentâneo é impossível. Perseguiram-no os futuristas e os interseccionistas e outros ainda, mas enredaram-se inevitavelmente no emaranhado das milhentas sensações com que se desenha um objeto. Sensações que não vão além dos nossos pré-conceitos. Eis porque conhecer de outiva pode ser um não conhecer.

Por outro lado a aquisição do conhecimento interrelaciona-se, também, com as experiências de vida do recetor: a mesma narrativa não assume os mesmos sentidos quando ouvida ou lida por indivíduos diferentes: para um jovem nascido num ambiente culturalmente  encasulado onde pretos e amarelos são inferiores a brancos, onde a mulher é menos capaz do que homem, onde o ambiente não é uma preocupação, onde um imigrante é um intruso e um quase não cidadão, para este jovem é difícil entender porque há quem acuse o sr Putin ou SrTrumpou o srErdogan ou o sr Bolsonaro das suas diatribes. E é assim com todos e com tudo. Apalavramos a realidade de acordo com a forma como nos empoderaram. Por isso é que palavras como Salazar, Franco, Mandela ou Martin Luther King arrepiam uns tantos e humedecem os olhos de saudade de muitos outros.

E é assim também quando falamos dos homens que construíram e foram a roupagem das suas cidades. Sim, que as cidades são o que forem os homens que as habitam. Haverá, por certo quem fique indiferente ou mesmo se encrespe só de ouvir falar em Amadeu Costa. Ninguém convoca em si uma totalidade de amores ou de ódios. Mas há, e nós hoje somos prova disso, quem queira que o seu legado permaneça e não seja esquecido. E estes, para a nossa sadia ecologia do conhecimento, são a maioria.

Eis porque, em primeira instância, quero sobrelevar a decisão de gravar em livro, para a posteridade, passos, momentos, episódios da vida de Amadeu Costa. Como a própria co-autora Helena Brito afirma na apresentação do livro, p.9, “A algumas pessoas é dado verem preservado parte do seu percurso – algo escrito, gravado ou filmado. A evolução das tecnologias tanto o facilita como o vai banalizando, mas, por regra, tudo tende a esfumar-se da memória dos vivos. E, porque assim é, reside nos vivos o poder de travar o passo ao esquecimento”. Eu acrescento à conclusão que reside nos vivos o poder de reforçar o conhecimento aos homens de hoje e de amanhã, sobre os homens, as cidades e as nações de ontem, pois as narrativas são necessárias para a memória futura e para que aumentemos as nossas competências que nos permitam melhor apalavrarmos a nossa circunstância.

Por isso, o Amadeu Costa e a cidade de Viana do Castelo têm de ficar gratos ao António Carlos Costa que sempre quis memorar o pai e a sua importância para a família, para a cidade e seu termo. Têm de ficar gratos à Helena Brito que assumiu realizar o sonho do marido. Têm de ficar gratos à Câmara Municipal que, com este apoio à edição deste livro,mais nos empodera no conhecimento de algum passado, do presente e no desenho do futuro.

Sobre o Amadeu Costa e a génese da obra em apresentação, falar-vos-á, naturalmente, a co-autora Helena Brito.Eu reservei-me, apenas, a tarefa de vos mostrar o que contém esta publicação.

São cerca de 330 páginas, com paginação de Ruide Carvalho, onde para além do Prefácio, da autoria  do Presidente da Câmara, José Maria Costa, e da Apresentação escrita pela Helena Adrião Brito, desfilam, durante13 capítulos, títulos como: Origens e Infância, Crescimento em Atividade, Organização Familiar, Do Gosto pelas Festas à Etnografia, Artista Decorador com amor, As Inúmeras Exposições de Amadeu, Em Torno das Festas da Cidade, Viana é Amor e Património, Intelectuais e  Artistas, Divulgador Cultural, Vereado no Poder Local Democrático, Viver a Liberdade e Memória. O livro termina com três grupos de textos:  Para Amadeu, Amadeu e Amigos e Palavras Finais. Nestas últimas 50 páginas, os autores, e cito, montaram “vitrinas com uma exposição de palavras de Amizade, em forma de POESIA – DEPOIMENTOS – DEDICATÓRIAS – CORRESPONDÊNCIA”.

No Prefácio, José Maria Costa refere-se a Amadeu como um “homem de tradições”, de chieira, de uma chieira que marcou indelevelmente os vianenses. Chama-lhe “trabalhador incansável da cultura tradicional” porque “abnegado e dedicado à divulgação dos usos e costumes e, em especial, do traje à vianesa”, referindo mesmo que Amadeu Costa não só foi muito importante para a criação do nosso Museu do Traje onde, inclusive, neste momento dá nome a uma das salas, como ainda se “superou na organização das festas da Srª da Agonia”. Depois de recordar a passagem de Amadeu pelo Teatro Sá de Miranda, José Maria Costa termina convicto de que o brio com que esta biografia foi preparada é, e cito, “uma justa homenagem a um dos nossos homens maiores”.

O dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht escreveu um dia:

“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”

Eu concluo, se me permitirem, com a expressão romana, usada por José Maria Costa: Amadeu Costa ficou na galeria dos nossos maiores porque lutou uma vida inteira pelo que acreditava.

Quanto à APRESENTAÇÃO feita pela Drª Helena Adrião Brito, encontramos interessantes considerações que procurarei sintetizar.

Desde logo, a autora adverte-nos para o facto de que a história das pessoas costuma balizar-se pelas datas de nascimento e morte, mas, ressalva logo-logo, que, às vezes, o antes interfere no durante e no depois, permanece mesmo durante, quer em vidas quer em livros, quer em narrativas orais, quer … por isso, e cito “reside nos vivos o poder de travar o esquecimento”. E com razão o diz que a vida de um homem não se pauta, tão só, pelos seus imediatos atos. Ninguém vive ou morre sozinho. Todos vivemos e morremos em companhia, em circunstância pelo que falar de alguém implicita situar o alguém numtopos, numa narrativa coletiva, num amplexo de afetos, num cosmos de vivências. E, mesmo assim, não saberemos esse alguém, apenas o aproximaremos um pouco mais. O escritor brasileiro João Guimarães Rosa, no seu livro Sagarana, tem um conto, O Burrinho Pedrês, onde, a dado passo afiança que, e cito, “a estória de um burrinho como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia da sua vida”. Esta afirmação garante-nos que um homem grande[2] é um homem que se dedicou à construção do coletivo não uma vez, mas todos o os dias da sua vida. Por isso importa, se o queremos contar em história, desenovelar-lhe todos os segundos. E isso não é possível que possa acontecer numa única visita. Por isso, lembra, de seguida, a autora, Viana do Castelo não tem esquecido o Amadeu Costa e mesmo em 2020 não esqueceu os 100 anos do seu nascimento. Eis porque, continua Helena Brito, às vezes parece que já tudo foi dito e que, muito embora em vida do Amadeu Costa, aquando da homenagem que lhe foi feita, muito se contou e analisou, muito há ainda por investigar e dizer.

Nesta linha de raciocínio dos autores, falar de Amadeu Costa é falar de Viana e da sua e nossa ribeira e falar da ribeira sem falar de Amadeu Costa é truncar a história de Viana. Mas, cuidado, porque falar de Amadeu Costa é falar de um homem como nós que, afiança a autora, humildemente soube crescer colhendo os ensinamentos dos seus maiores e do seu termo sem, contudo, jamais abdicar da sua matriz de pensamento.

De seguida, Helena Adrião Brito, justifica a constituição do livro e, quase a terminar, refere que este trabalho “dá continuidade a um projeto do filho mais velho, meu marido António Carlos, projeto que traiçoeira doença interrompeu.” Contudo “ficou a memória de muitas conversas, a par de variadas anotações em papel, computador e telemóvel, todas aqui cuidadosamente inseridas em coautoria póstuma” (p.11) No entanto previne-nos “que todos os factos são, com acrescida responsabilidade, sujeitos a escrutínio da verdade e do rigor”, para logo nos confirmar algumas outras fontes: “foi compulsada correspondência, folhetos e notícias de imprensa, ouvidos registos e depoimentos” que agora nos aparecem em narrativa cronológica.

E termina desafiando-nos a percorrermos a Viana do Séc. XX, com Amadeu e, última citação, “com umas quantas pessoas que também por cá andaram”. E com razão nos alerta para isso pois a degustação deste livro é um percurso memorialístico alto-minhoto e, não raro, nacional. Cada um de nós é ele e a sua circunstância, para citar Ortega & Gasset. Construímo-nos, nós e os espaços, com o que herdamos, mas também com o que nos circunscreve, que, diz o povo, uma mão lava a outra e as duas afeitam o rosto. Por isso, este livro é uma contínua descoberta e uma interessante lição de história vianense, minhota, regional e mesmo nacional. Com Amadeu, ou por sua causa, lembramos e/ou revisitamos, e cito aleatoriamente, não apenas a  sua família como ainda  Francisco Sampaio, José Rosa Araújo,  Abílio Lima, Manuel Fontes, Severino Antero Costa, Gaspar Pereira de Castro, Maestro Zé Pedro, o escritor Jorge Amado, o Fernando Seixas, Salvato Feijó, Alexandre  Rodrigues, Ribeiro da Silva, Armando Soares, Maria Augusta  D’Alpuim, Joaquim Ribeiro, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, João da Rocha Páris, Manuel Couto Viana e o filho, a Rosa Ramalho, o ceramista João Macedo Correia, o pintor António Joaquim, o ator e encenador e também ceramista António Pedro, o canteiro António Freita. São tantos e tantos, que quase 80 anos é muito tempo, que o livro bem poderia incluir um índice onomástico. Mas não só: revisitamos a Escolar Gráfica,  a Fábrica de Louça da Meadelae os Banhos Quentes da Praia Norte; mas também admiramos, uma vez mais, as inúmeras exposições e Feiras de Artesanato, a gênese do Cortejo Histórico, a amizade com a Galiza e com Martinez Coelho, a Arte na Rua, as Jornadas de Arte Popular, a festa do Traje, em que o artista e decorador Amadeu se envolveu; saboreamos algumas explicações toponímicas;regressamos, nostálgicos, à Operação Pirâmide, a que, na Meadela, eu também estive ligado. Mas conhecemos ainda um Amadeu socialmente interventivo, por exemplo na reflexão que lançou sobre a entrada dos cortejos fúnebres no cemitério de viana (com efeito, os portões traseiros do cemitério serviam para os enterros civis e por aí entravam os divorciados, os suicidas, os não católicos, os ateus, os não alinhados com os códigos morais vigentes. Os funerais religiosos, católicos, faziam-se pela porta da Igreja de santo António), sobre a recuperação do Hospital Velho ou da Porta Mexia Galvão.Vemo-­lo na Associação de Amizade Portugal-Rússia. Sabemo-lo no Estoril, em Alcoitão, na Bahia e em outras partes do mundo percorrido.

Na verdade, deambular com este “Com Amadeu Costa” é um percurso de enamoramento com a Viana e com Portugal do século XX.

E termino com uma breve referência biográfica dos autores, não porque a julgue necessária dada a sua visibilidade pública, mas porque a Helena (que gentilmente me fez chegar o tomo 54 dos Cadernos vianenses onde se inclui não só um artigo seu, no âmbito do Centenário de Amadeu e intitulado “Navegando à vista de quatro textos de Amadeu Costa”, como ainda uma brevíssima biografia dos autores) ao redigi-la, fê-lo de um jeito que me conquistou pela fluidez e simplicidade da narrativa.

Quanto ao António Carlos Ribeiro Lomba da Costa, falecido há quase dois anos(03/06/2019), engenheiro eletrotécnico, membro da UEC (União dos Estudantes Comunistas), antes do 25 de abril, pai aos 18 e aos 19 anos, “um pouco fora das normas de há 50 anos”, nas palavras da Helena Brito, homem discreto, que abdicou de grandes projetos de vida e se dedicou plenamente aos filhos, “Evitava a curiosidade alheia (…)  não apenas para preservar a sua privacidade, mas também as dos filhos”. Permitam-me aqui uma memória muito pessoal sobre a discrição do António Costa, a que alude a co-autora do livro. O António, que foi técnico Informático da Telecom entre janeiro de 1990 e abril de 2008, entrou em 1982, como professor de matemática, na hoje denominada Escola Secundária de Monserrate e aí se manteve até 2019. Mas eu recordo também o António por outra razão. Em 1981 eu regressava do estágio pedagógico realizado na escola das Cavaquinhas,  hoje Secundária Zeca Afonso, no Seixal e ingressava, pela segunda vez na então Industrial e Comercial de Viana do Castelo, de onde me reformei em setembro de 2012. Aí conheci o António, muito discreto, que pedia licença para falar, que não atropelava nada ou ninguém. Um dia, já em 2009, aquando do meu último regresso à gestão daquela escola, acabada de ser requalificada e com uma memória, em meu entender, algo maltratada, desafiei o Costa a pensarmos um Espaço Memória onde se contasse a história de todos os diretores desde Serafim de Sousa Neves, em 1888, e de muitos professores e de muitos projetos, e de muitos alunos de referência e de muitos objetos-memória daquela instituição. Disse-me logo que sim, com um entusiasmo quase superior ao meu. E o atual museu da ESM deve-se ao António Costa. E a história de Viana ficará muito mais enriquecida quando um dia se publicar todo o trabalho que ele e a Helena recolheram sobre os Diretores daquela casa, desde quando ainda se chamava apenas Escola de Desenho e Cerâmica.

Foi com imensa saudade que o vi partir, porque, como Amadeu, também o António fazia, faz, falta a Viana.

A co-autora Maria Helena Adrião de Castro Brito, de cujas pesquisas o António me ia falando, mas que eu não conhecia, enviou-me uma autobiografia plena de discreto e irónico humor, que muito apreciei. Nasceu em faro, com cinco meses veio para o Porto, depois Amadora e finalmente Viana. Cursou direito, estagiou com o Dr. Romeu de Sousa, lecionou na EB 2,3 Pedro Barbosa e nas Escolas Secundárias de Stª Maria maior e de Monserrate e, por assumida opção, escolheu os Registos e o Notariado. Esteve em Mondim de Basto, primeiro, em Guimarães depois e, desde 82, no Registo Civil de Viana do Castelo. Casou, em 1981, com o António, e cito-a, “a coroar uma cumplicidade que vinha desde os tempos da Galeria Picasso”, na Rua de Altamira.  Também esteve na UEC, ainda que depois do 25 de abril. Diz, quem a conheceu nos tempos do antigo liceu, que era uma aluna discreta, mas senhora dos seus créditos, se a tanto desafiada. Por isso não me admirei quando, consciente e responsavelmente, a dado passo da sua autobiografia, afirma: “Ainda que discreto, o meu percurso profissional foi tido por competente, tanto a nível técnico como no relacionamento humano”.

Enquanto lia a autobiografia da Helena e rememorava o António, lembrei-me de uma história que Paul Harris, fundador do Rotary, conta, a propósito da delicadeza e discrição do seu avô: “Vôvô não discutia com ninguém. Preferia calar mesmo que ofendido. Vovó sempre contava este episódio ilustrativo: contrariando os seus hábitos, ele, certa vez, levou a Vovó a Boston, numa das suas viagens para compras. Ao passar numa rua de grande movimento um bêbado investiu contra vovô como se fosse agredi-lo. Vovô apercebeu-se de imediato, mas apenas se desviou, tirou o chapéu, curvou-se, dizendo delicadamente, «desculpe-me, senhor» e continuou andando”.

Mutatismutandis, o que conheci do António bem como a autoescrita da Helena quase talvez se pudesse resumir numa frase de Adelaide Graça, uma escritora cerveirense que também trabalhou uma quase vida inteira na Telecom/Viana e se reformou, sensivelmente, ao mesmo tempo que o António Carlos Costa:

“não perturbemos o silêncio. Passemo-nos nele sem calcarmos demasiado o chão”.

O António que eu conheci cultuava o silêncio e a Helena, que acabo de conhecer, evita atroar o chão por onde passa. Assim, e porque assim, neste livro sobressai, naturalmente, Amadeu Costa, um homem, um artista e um cidadão com que tive o prazer de privar, algumas vezes.

Obrigado pela vossa atenção.

José Luis Carvalhido da Ponte

[1] Porque se aproximam os dias da nossa festa que sempre foi a festa de Amadeu Costa, e embora reconheça para artigo de opinião este é longo, não resisti em enviá-­lo. Assim homenageio o homem, o artista, o amigo.

[2]Para os romanos, como para o Engº José Maria Costa, um homem grande faz parte da plêiade dos homens maiores. No crioulo da Guiné-Bissau, um homem idoso, porque enciclopédia ambulante, é um “omigarandi”.

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